Vida e obra da Liga

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VIDA E OBRA DA LIGA

por armando reis

A Liga de Melhoramentos de Freguesia de Cabril foi fundada em 2 de Maio de 1948, tendo-se reunido para o efeito, em Lisboa, na Casa do Concelho de Pampilhosa da Serra, cerca de meia centena de naturais da freguesia de Cabril que, num só dia, procederam à discussão e aprovação dos estatutos da colectividade e elegeram os primeiros corpos gerentes que ficaram assim constituídos:

ASSEMBLEIA GERAL - Manuel Barata, presidente; Mário Alves Martins, 1º secretário; Eduardo da Costa Martins, 2º secretário. DIRECÇÃO - Manuel João, presidente; 1º secretário Joaquim Fernandes, tesoureiro; Álvaro do Carmo e Silva, 1º António Maria dos Santos, relator.

Os trabalhos da mesa, que decorreram no maior entusiasmo, foram orientados por José dos Santos, alma boa e simples e de uma dedicação sem par, infelizmente já falecido, coadjuvado pelos irmãos Alves Martins.

A 9 de Junho, ou seja, um mês depois da sua fundação, a direcção eleita, algo emocionada, entrava na secretária do Governo Civil de Lisboa a fim de participar a fundação da nóvel colectividade e, vinte dias depois, depositava na tesouraria do mesmo Governo Civil a quantia de 17$50 (bons tempos) referente ao registo dos estatutos.

São estes homens os verdadeiros alicerces de uma colectividade que através de todas as vicissitudes tem feito o que está ao seu alcance para minorar as precárias condições da vida existentes na Serra. Tem sido quase uma epopeia, quase sempre no anonimato, sem louros nem benesses, cheia de escolhos e espinhos e que nem sempre tem merecido a compreensão devida.

Já dizia Camões... "De amores e seus danos me fiz lavrador/ semeava amor e colhia enganos".

A 29 anos de distância é espantoso verificar como é que uma colectividade de tão modestos recursos financeiros e humanos, com dirigentes de condição social humilde e de pouca cultura, tenha conseguido amealhar fundos que atingem os 450 contos e foram integralmente aplicados em melhoramentos públicos. Mas espantoso ainda é saber que a colectividade tem ainda hoje (1977) somente 250 associados, muitos dos quais continuam a pagar 2$50 de quota por mês, e que durante os primeiros dez anos de existência o montante da quotização anual não ultrapassava os quatro mil escudos!

Mas para alcaçar tais resultados, quantos sacrifícios, quantas noites perdidas, quanta imaginação, quantas caminhadas! Só quem por cá passou terá um ideia completa.

A primeira obra a ser executada pela agremiação, que ensaiava ainda os primeiros passos, foi o arranjo de uma fonte no lugar da Sanguessuga e que custou 150$00! Seguiu-se a reparação de um caminho em Praçais, por 500$00.

É claro que uma região onde estava tudo por fazer, os pedidos choviam de todos os lados e quadrantes bem como a "manta" era muito curta não chegava para as encomendas. Mesmo assim muita coisa foi feita, como iremos ver.

A primeira iniciativa de envergadura, atendendo aos recursos da Liga, foi o arranjo do cemitério da freguesia, com os muros quase em ruínas, onde não havia terra e sobravam pedras. Em 1949, foram gastos no seu arranjo 9 contos, fora a mão-de-obra oferecida.

É, porém, em 1953 que acontece a primeira grande realização da colectividade quando deu início à construção da chamada casa do médico - hoje, Centro de Saúde de Cabril - dotada de posto de socorros e habitação e onde foram despendidos em cerca de dois anos, mais de 90 contos. Mais tarde foi ainda a Liga que, durante seis anos consecutivos pagou ao Estado a quota anual de 1.200$00.

Outras obras mais modestas mas de flagrante utilidade se foram realizando, como sejam a reparação de caminhos em Cabril, Foz do Ribeiro, Ribeiros e Praçais, pontões em Algar, Cabril Sobralinho, Vale Grande e Vale Derradeiro, fontes em Armadouro, Foz do Ribeiro e Sobralinho, e nas quais foram gastos mais de 35 contos.

Em 1956 a Liga após desenvolver transbordante actividade e ter pago os respectivos projectos, consegue o abastecimento de água para o Armadouro e Praçais, duas das mais importantes povoações da freguesia, pondo-se assim termo às tristemente célebres fontes de chafurdo. As empreitadas foram orçamentadas respectivamente em 319.900$00 e 275.400$00, tendo o Estado comparticipado ambas as obras em 75% do seu custo. A Liga ficou incumbida de administrar os dinheiros públicos destinados às obras citadas.

Em 1957, é inaugurada a estação dos C.T.T. do Cabril. Embora desta feita a Liga não tenha despendido propriamente fundos para o efeito, foi devido à prodigiosa acção dos seus dirigentes que tão importante melhoramento se concretizou. Mesmo assim quem suportou a despesa com um lanche às entidades presentes no acto de inauguração foi a colectividade. Actualmente (1977) aguarda-se a automatização da rede telefónica local.

De igual modo a electrificação em Cabril ou a montagem do telefone público se ficou igualmente a dever ao dinamismo e espírito de sacrifício dos responsáveis da Liga que contactaram inúmeras vezes os serviços competentes, quer pessoalmente quer ainda através do envio de ofícios.

Cabe. aliás, aqui referir que, tão ou mais importante que o dispêndio de dinheiro em melhoramentos públicos, é a tarefa desenvolvida junto dos departamentos do Estado ou das autarquias locais para conseguir que os benefícios do progresso cheguem até às nossas aldeias. As vezes é preciso mesmo paciência de Job...

Para ilustrar o que dizemos citamos ainda outro exemplo. Sem a actividade desenvolvida pelos dirigentes da Liga não teria sido possível tão cedo a construção da Escola Primária de Cabril (hoje em 2007, já extinta por falta de alunos), dos melhores edifícios do concelho e que substituiu a velha escola então existente, autêntico pardieiro quase a desmoronar-se. Lamenta-se e protesta-se é que tal escola não esteja ainda electrificada, até porque a Liga já mandou montar, à sua custa, três postes "BIP que levaram ao edifício escolar a indispensável energia eléctrica, montagem essa que importou em 12 contos. Entretanto, já foi pedida pela Liga para a mesma Escola a colocação de um Posto de Telescola, que muito viria a beneficiar a população jovem.

Também a construção da vestuta igreja paroquial, bem como a aquisição do relógio eléctrico da torre foi comparticipada pela colectividade.

Também as pontes existentes no rio Unhais, próximo do Vale Grande e no caminho para o Armadouro, embora pessimamente concebidas, se ficaram a dever ao empenho posto pelos dirigentes da Liga.

Poucas pessoas, no entanto, saberão que a abertura de uma passagem através dos penedos que ladeiam o açude da albufeira de Santa Luzia, se deve aos insistentes pedidos da colectividade. Deste modo se pôs termo ao perigo que representava a travessia de barco, sobretudo no inverno. É claro que a solução óptima seria uma passarela sobre o referido açude e que possibilitasse o trânsito automóvel. Mas o mal foi feito no princípio e agora não há remédios.

Em 1959, a Liga paga o projecto do lavadouro público, em Cabril, cujas obras viriam a ser iniciadas apenas em 1973 e foram inopinadamente interrompidas pouco antes do 25 de Abril de 1974. Desde então não tem sido descurado tal assunto e a Liga conta com a promessa do actual presidente da Câmara, Sr. Fernanda Augusto Silva, que as obras ficaram concluídas este ano.

Em 1969, a Liga gastou mais 25 contos na cobertura de ribeiros e barrocos que atravessavam o Cabril, no sentido norte-sul, e que no Verão exalavam um cheiro fétido com graves perigos para a saúde. Antes, procedera ao arranjo da "Fonte Velha" de tão gratas e nobres tradições. Depois colaborou na construção de pequenos lavadouros para uso das mulheres da aldeia.

Em 1970, é pago mais um projecto, desta vez o projecto das calçadas em Cabril, (1ª fase) que importou em 15 contos e ainda adquire um transformador eléctrico para os Ribeiros.

Três anos depois, a Liga manda colocar à entrada e saída da povoação, duas placas topográficas, oferta generosa do associado José Barata.

Em 1976 a Liga adquire finalmente o terreno onde existiu a primeira igreja paroquial e nela irá construir um logradouro público, dotado de parque infantil e procederá ainda ao arranjo da velha torre que escapou ao camartelo e ficará a constituir o "monumento nacional" da nossa terra.

Entretanto, em 1975 e 1976, a Liga gasta 106 contos na reconstrução de becos que se encontravam em estado deplorável e entrega, a uma comissão local, o subsídio de 28 contos destinados a uma capela mortuária no cemitério da freguesia.

Também o abastecimento de água ao Cabril, que se tem vindo a degradar de ano para ano, em parte devido às condições climatéricas adversas tem merecido a atenção dos dirigentes da colectividade, que se tem mantido à margem de questiúnculas pessoais. Foram assim gastos mais de 23 contos na captação de água para remediar uma situação que, sem dúvida, carece de uma solução muito mais ampla, pois a questão de fundo é o actual abastecimento de água estar a rebentar pelas costuras, pois já conta com 35 anos e não poder corresponder às necessidades crescentes da população. Daqui chamamos, pois, a atenção de quem de direito para tão magno problema.

No campo cultural e pedagógico tem a Liga promovido nos últimos anos manifestações, ainda que sem carácter prioritário, dada a carência do essencial de que padece a nossa gente. Entre essas manifestações, salientamos uma campanha destinada a fomentar o gosto pela fruticultura, com a distribuição gratuita de árvores de fruto, numa zona onde ainda não há o hábito de consumir fruta. Destacamos também uma exposição fotográfica realizada no salão paroquial, impediadosa resenha da realidade da Serra e na qual o povo local se viu retratado com fidelidade aderindo com significativo entusiasmo. Essa exposição viria a ser repetida em Lisboa e mereceu rasgados elogios da imprensa nomeadamente os jornais, "Diário de Notícias", "O Diário", "A Luta", "Jornal do Fundão", e " Comarca de Arganil".

Propositadamente, deixamos para o fim aquilo que tem constituído o cavalo de batalha da colectividade e constitui a aspiração máxima das gentes cabrilenses: ver dotada a sua aldeia com uma estrada capaz e que corresponda às necessidades do seu tempo.

Os actuais dirigentes tudo têm feito nesse sentido e estão firmemente convencidos que tal aspiração vai ser uma  realidade a curto  prazo. Além dos ofícios elucidativos recebidos da Secretaria de Estado das Obras Públicas e da Junta Autónoma de Estradas (actual Estradas de Portugal), contam com a palavra do presidente da Câmara, em quem depositam grandes esperanças no arranque do concelho, e ainda nessa veneranda figura que é o Dr. Fernando do Valle, governador civil de Coimbra.

Quanto a planos para o futuro, a Liga continuará a pugnar pelos interesses da nossa gente onde for necessário. Além do já citado logradouro público, é intenção dos dirigentes proceder ao alcatroamento do troço de estrada entre os Correios e a Escola, ao arranjo de mais uns becos em estado lamentável e, sobretudo, a edificação de um centro de convívio onde todos possam confraternizar  e possibilite a realização de sessões de cinema, exposições e outras manifestações de carácter cultural e recreativo. O Núcleo Juvenil, recém-formado, pensa também construir um campo polivalente que sirva a juventude de lá e de cá.

A terminar, uma palavra ainda para os mais jovens. A colónia cabrilense espalhada por Lisboa e outros locais do País, por França, África, Brasil e Estados Unidos, é das mais vastas de todo o concelho e nela predomina uma juventude sempre generosa e inconformista. Muitos desses jovens confessaram-se - e ainda bem - progressistas.

Apelamos, pois, para a sua consciência de jovens desinibidos de preconceitos e tabus, para virem a colaborar no Regionalismo. Terão assim a rara oportunidade de serem coerentes consigo próprios e de demonstrarem que não é demagogia as ideias que defendem. Uma lufada de ar fresco é sempre necessário e ninguém melhor que os jovens está à altura de o fazer. Palavras leva-as o vento. O que fica são as obras. Nada se constrói na negligência e seus desvios ou na aceitação fácil de chavões com que, porventura, nos queiram intoxicar. Tido é irreversível e no Regionalismo também.

Como disse um dia, Raul Proença, jornalista, escritor e pedagogo, "é uma irrisão dizer aos deserdados da fortuna que são livres quando têm apenas a liberdade de morrer de fome, que têm o direito à instrução, quando as vantagens de ensino só podem ser desfrutadas pelos ricos"..

- Venham, pois, que serão sempre benvindos!

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Textos: de José Teodoro Martins com a Edição da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril - 50.º Aniversário  e de Armando Reis com a obra Subsídios para a História do Regionalismo Serrano, Cabril (Pampilhosa da Serra) e a sua Liga de Melhoramentos - e ainda, comunicados, notícias e outros assuntos importantes para divulgar através deste sítio através da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril.
A manutenção desta página está a cargo de Carlos Alberto Teodoro da Purificação Cruz.
Última actualização: 15-Abr-2018