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Crónica de um Crónico
Problema Rodoviário

O rio Unhais nasce acima das Meãs, freguesia de Unhais-o-Velho, e concentra as suas águas na albufeira de Santa Luzia, uma barragem de planalto apoiada nos majestosos e altivos penhascos que no Vidual de baixo formam uma estreita e profunda garganta. Prosseguindo, o rio encontra no seu caminho o Vale Grande, a Foz do Ribeiro e a Pampilhosa, desaguando, e assim perdendo o seu ser, numa outra albufeira, a Barragem do Cabril (de Pedrógão). De todos os cursos de água concelhios, este é o mais importante, com 61 quilómetros. A nível distrital ocupa o 5.º lugar.

A par dos indiscutíveis benefícios dos rios, acontece que também eles têm o condão de provocar dificuldades e mesmo roturas de comunicação entre as suas margens, exigindo dos poderes públicos um acrescido esforço no sentido de minorar os inconvenientes daí resultantes para as populações permanentemente carecidas de relacionamento que, por sua vez, induz o desenvolvimento.

O concelho pampilhosense já vai tendo um conjunto de vias rodoviárias possibilitadoras de razoáveis acessos, quer entre povoações integradas no seu domínio territorial quer nas saídas para o exterior. E isto mercê de um esforço notável, tendo em atenção a montanhosa e difícil área concelhia, ainda não há muitos anos extremamente carenciada de vias de comunicação. Claro que continuam a existir deficiências, algumas gritantes, a primeira das quais a ligação da Pampilhosa à sua parte nordestina, pela margem direita do rio Unhais, logo visível na precária e perigosa saída da Vila que leva à ponte da Covilhã, poucos metros acima.

Todavia, a economia de espaço e tempo convida-nos a enfrentar desde já, e sem considerações, a questão e a razão de ser desta "crónica de um crónico problema rodoviário" cuja origem se situa e mergulha no velho estrangulamento de comunicações entre margens do rio Unhais, em consequência da construção da barragem de Santa Luzia.

Este empreendimento, concluído nos princípios dos anos 40 (século XX), foi naquela época uma obra de repercussão nacional, pela sua dimensão e capacidade energética. E muitos benefícios trouxe a esta região, é bom que se diga: mão-de-obra por alguns anos assegurada, estradas rasgadas para uso da Companhia Eléctrica das Beiras - a concessionária -, mas publicamente utilizadas, electrificação de povoações porventura de forma acelerada, além das receitas para o município, embora, neste caso, só após longo e difícil processo administrativo. E malefícios? Também os trouxe, claro. Não há bela sem senão. Que o digam, em primeiro lugar, os malogrados desalojados do Vidual de Baixo, essa primorosa aldeia emoldurada a sul e poente por majestosa muralha quartzítica, povoação matinalmente acordada e alegrada pelos raios de uma aurora quotidianamente acontecida lá para as bandas da Gardunha. E que o digam também todos os povos sediados numa e noutra margem do rio Unhais, entre si separadas pelo vasto lençol de água, bonito de ver, mas impossível de transpor. À perplexidade geral então vivida sucedia o clamor: "afinal, que solução para as imprescindíveis ligações entre as margens, que a albufeira cortou?". E como a peneira, mesmo não tapando o sol, dele alguma coisa tapa, a proprietária do empreendimento, certamente lembrando-se que somos um país de marinheiros, logo pensou: " e se lhes oferecêssemos, para a travessia, um barco, um par de remos e um remador?". E é que lhe ofereceu mesmo. o autor desta crónica teve o raro privilégio de utilizar, logo de início, esse "prestável e eficiente serviço", aliás de utilização extensiva a animais. E foi assim que certo dia se viu orgulhosamente fazendo parte do séquito de meia dúzia de passageiros, todos estoicamente sentados em volta da minúscula barcarola, com um burro colocado no exacto centro de gravidade, pois que um desvio do animal, por sinal muito pacífico, "deo gratias", bem poderia provocar o naufrágio de toda a comitiva, burro incluído.

Sendo certo que a vida é feita de mudanças, e é necessário progredir, a Companhia Eléctrica das Beiras, batida por reclamações, vai-se à rocha quartzítica da margem direita e nela rasga um acesso pedonal até ao arco de cimento. Tudo bem, quanto a peões. A passagem até tem o seu encanto, e quem tiver vertigens faça o favor de desviar o olhar da garganta apertada e profunda. Concentre-se e olhe bem onde põe os pés, porque debaixo dos pés é que nascem os sarilhos. E o automóvel? Para esse imparável sedutor de homens e comodidades, que solução foi encontrada para a ligação entre margens? Pois bem, improvisou-se uma estreita estrada de macadame a jusante da barragem, mais tarde melhorada e  alcatroada pela Câmara Municipal, com os desníveis acentuados e uma curva  à prova de vertigens e, como segurança quante baste (1), confiou-se à prudência ou temor do eventual condutor (porque quem tem c.. tem medo), coadjuvado por bons travões, caixa de velocidades e olho sempre à espreita do "inimigo" que, em sentido contrário, pára se desce, prossegue se sobe, sempre à prova de ânsias, suores e calafrios.

A realidade, sem excessivas ironias, é esta: a margem direita do rio Unhais e os povos das respectivas freguesias vão perdendo cada vez mais a sua fraca capacidade de valorização, amputados que foram, e continuam a ser, de ligações correctas entre as duas margens. Um dos poucos factores de desenvolvimento seria o turismo. Mas como implementá-lo, se nestes três quilómetros de estrada, a refazer em termos correctos, não pode circular um autocarro, e até um simples automóvel o perigo está sempre latente? (1)

A inclusão neste livro das considerações atrás expressas insere-se na problemática do regionalismo e da sua capacidade de despertar consciências acomodadas a situações que, à partida precárias, não podem eternizar-se ao arrepio de soluções correctas e definitivas. À Câmara Municipal da Pampilhosa da Serra, que no domínio rodoviário tem mostrado capacidade e engenho, caberá a tarefa de estudar, por si ou em colaboração com o próprio Estado, a resolução deste "crónico problema rodoviário", tornando assim mais abrangente e eficaz a rede rodoviária concelhia.

(1) A edição acima foi publicada em 1998, por altura do 50.º aniversário da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril, pelo que, cumpre corrigir alguns detalhes que entretanto foram resolvidos. Foi concluído o alargamento da estrada atrás referida, desde a Barroca do Vale Grande até ao topo da enorme barreira onde encontra a estrada que vai para o Casal da Lapa. No entanto deixou de fora desse alargamento a pequena ponte que atravessa o rio Unhais - a ribeira - junto à garganta da Barragem de Santa Luzia.

 

Nota Final

O panorama actual, neste fim de milénio, no que concerne à vida rural, apresenta características muito peculiares e de certo modo contraditórias. As nossas povoações serranas, ao mesmo tempo que se desenvolvem em quantidade e qualidade, no domínio da construção urbana, diminuem drasticamente no que respeita ao volume da população residente. De facto, ao povoado de outrora, de xisto e ardósia, quase confundido com as paredes das hortas e a copa das oliveiras, mas pujante de vida nas casas, ruas e campos, sucede hoje o povoado do tijolo e telha, de paredes brancas e telhados rosados, mas vazios do essencial: da componente humana.

Todavia, a nota final não pode soar a irremediável pessimismo. A vida é por essência dinâmica - e as sociedades humanas corporizam esse dom - sempre desejosa ou ansiosa de mudanças, mas ao mesmo tempo não isenta do sentido de equilíbrio, satisfeitas que estejam as suas necessidades.

O interior do país, e a nossa Beira-Serra é um exemplo paradigmático, terá de encontrar o caminho certo para valorizar e ser parte de um todo nacional que se quer harmonioso, desenvolvido e atractivo. Os homens devotados à causa regionalista foram os incansáveis obreiros da valorização operada em centenas de pequenas povoações disseminadas por toda esta área montanhosa entre as serras da Lousã e da Estrela, não deixando parecer definitivamente a vida pujante de que outrora foram palco. Cabe agora azo filhos destes arautos precursores do regionalismo a tarefa e o dever de prosseguir, a obra dos seus antecessores. Porventura em termos diferentes, dadas as diferentes condições sociais e económicas actuais. Um dos contributos para esse efeito mais valioso será o regresso das pessoas às suas terras, se não de forma definitiva, pelo menos o mais possível repetida, de modo a manter interessante e atractiva a vida das comunidades. Com efeito, é nossa convicção de que o homem serrano, martirizados pelo frenesim citadino, será o turista habitual de fins de semana e férias repartidas, em busca da sua casa rural. Incentivam-no as melhores condições económicas adquiridas, os melhores meios de comunicação, a sempre apetecível fruição do seu património aldeão, agora dotado das necessárias comodidades, a sua recuperação física e psíquica, a paz ansiada e, não menos importante, um permanente e sempre renovado encontro com o seu remoto passado, de sabor familiar e local.

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Textos: de José Teodoro Martins com a Edição da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril - 50.º Aniversário  e de Armando Reis com a obra Subsídios para a História do Regionalismo Serrano, Cabril (Pampilhosa da Serra) e a sua Liga de Melhoramentos - e ainda, comunicados, notícias e outros assuntos importantes para divulgar através deste sítio através da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril.
A manutenção desta página está a cargo de Carlos Alberto Teodoro da Purificação Cruz.
Última actualização: 15-Abr-2018