Cabril

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Sobre Cabril

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cabril

Origem, situação e desenvolvimento I

O termo "cabril" é muito comum e aplica-se para caracterizar o surgimento de um agregado de pastores, com as suas casas e currais, ou também  a existência de um local estreito entre rochas ou montanhas, dando lugar, neste caso, a nomes de gargantas, serras e rios. A garganta rochosa onde está implantada a barragem de Santa Luzia era outrora chamada cabril do Vidual. E bem próximo da nossa região, temos os "cabris" dos rios Ceira e Zêzere.

A designação Cabril (do latim Caprile=cabra), dada a esta povoação, bem provável é que se deva à formação de um núcleo de pastores aqui fixada numa encosta propícia ao pastoreio. É certo que já vimos, em textos não muito antigos, apelidar de Cabril ou Batoucos a serra onde a povoação está situada. Mas, neste caso, julgamos mais curial que o povoado tenha dado o seu nome à serra do que a serra o seu nome ao povoado.

Caprile=cabra

Seja como for, a verdade é que a aldeia, uma das três sedes de freguesia com o mesmo nome existentes no país, teve outrora condições naturais propícias à criação e alimentação de rebanhos, dada a existência de uma vasta encosta, para além de viçosos matos, se encontravam largas extensões de relva espontânea - eram os "lameiros", designação ainda hoje aplicada a toda a vasta zona no sopé poente do Penedo do Carvalhal.

O Cabril - sede de freguesia - é uma aldeia situada no prolongamento e vertente sudoeste da serra dos Batoucos, 13 quilómetros a nordeste da Pampilhosa da Serra, de cujo concelho faz parte, numa encosta encimada pelo afloramento quartzítico que atravessa esta região central do país no sentido noroeste-sudeste, afloramento que aqui revela de forma majestosa e bela, especialmente nos penedos do Vidual, Vale Grande e Poios.

A constituição desta freguesia ocorreu nos finais do século XVII, dela fazendo parte, além da sede, as povoações de Armadouro, Praçais, Vale Grande, Foz do Ribeiro, Porto de Égua, Sobralinho, Malhau, Sanguessuga, Lomba da Senhora, Vale Derradeiro, Vale Musqueiro, Silva e Algar, além de diversas "quintas" outrora habitadas e hoje já quase inexistentes (Quinta da Lameira Redonda, Quinta do Vale de João Pires e Vale Covo).

Esta primeira criação autárquica nos limites da Pampilhosa da Serra terá correspondido, certamente, à conveniência ou mesmo necessidade de descentralização dos serviços administrativos e religiosos. Aliás, este processo continuou, alguns anos depois, com a criação das freguesias de Pessegueiro e Machio. Posteriormente, com a extinção dos concelhos rurais, em 1885, o município pampilhosense estendeu a sua jurisdição a Fajão e às freguesias que dele faziam parte: Vidual, Unhais-o-Velho, Dornelas e Janeiro de Baixo. Com a anexação da freguesia da Portela do Fojo (Amoreira) desintegrada do ex-concelho de Alvares. a Pampilhosa fixou os seus actuais limites.

O mais antigo documento autêntico sobre a freguesia de Cabril, surge-nos com a data de 26 de Abril de 1758 (in "Memórias Paroquiais do Reino" - Torre do Tombo), manuscrito elaborado, e assinado pelo Padre Cura Manuel Francisco, onde, a par de informações diversas de difícil leitura se diz: "tem este lugar e os mais da freguesia 97 moradores" (leia-se fogos). Com base nesta informação fidedigna, e considerando que cada família seria constituída em média por 5 pessoas, o total de habitantes da freguesia andaria então por cerca de 485. Como o documento não refere o número de fogos por povoação, vamos tomar a relação que existia em 1911 (data do primeiro recenseamento por aglomerado) entre o total de habitantes da freguesia (1152) e do Cabril (385). Sendo essa relação de 33%, conclui-se que, na data em apreciação, isto é, em 1758 a povoação de Cabril teria à volta de 160 habitantes e 32 fogos.

A povoação já teria, aquando da sua elevação a sede de freguesia, alguma importância decorrente, essencialmente, da sua situação como ponto de passagem para as povoações de outros concelhos nordestinos, bem como Janeiro de Baixo passando pelo Armadouro.

De acordo com a tradição oral, a fundação e desenvolvimento da aldeia partiu de um reduzido núcleo de humildes casas construídas entre duas linhas de água: os barrocos da Carvalha e Samelo. Duas ruas principais paralelas delimitavam o povoado: a Rua de Cima e a Rua de Baixo, encontrando-se, a sudoeste, na Cancela (topónimo este muito significativo). A nordeste, a povoação estava protegida por uma pequena elevação, em tempos chamada "castelo", uma espécie de ponto de vigia sobranceiro ao denso casario. Este relevo servia também de protecção contra ventos dominantes ou nortadas.

O surgimento de um pequeno núcleo de casa, porventura de âmbito familiar, fora da primitiva área, deu azo à ainda hoje chamada "Quintã", termo medieval significando subunidade se formou a "Quinta", já mais alargada do que a "Quintã", e cujos contornos foram determinados pelo desenvolvimento da respectiva zona, na sequência da construção da primeira igreja matriz. Com efeito, a construção do templo na parte cimeira da povoação veio proporcionar o alargamento urbano da parte noroeste da aldeia e o surgimento de comércio na via descendente que leva à Rua de baixo e à Eira, onde já existia, desde longa data, a capela de Santa Apolónia,  referida nas  "Memórias Paroquiais do Reino" como ermida.

No decurso da sua lenta e centenária existência, a aldeia foi sendo objecto de muitas modificações, não só no seu interior como também na sua normal expansão. A mais recente e bastante significativa ocorreu em 1935, com a passagem da estrada de acesso ao Vidual de Baixo, onde então se iniciou a construção da Barragem de Santa Luzia. Esta via veio alterar, de modo significativo, toda a zona cimeira da povoação. O adro da velha igreja matriz foi estreitado e a estrada rompeu pela Carvalha, abrindo caminho através da propriedade chamada Tapada dos Nabos. Esta via de acesso, por um lado, e a construção da nova igreja, por outro, vieram determinar na segunda metade do século XX, o desenvolvimento e expansão do Cabril para o lado sudeste, onde as chãs já anteriormente constituíam um local aprazível.

Património da povoação II

1. Religioso - igrejas (primitiva e actual)

A primitiva igreja de Cabril, construída no local onde hoje se situa o Centro Social, era um templo de arquitectura simples, mas bem localizado e de dimensões adequadas ao número de habitantes da freguesia. Os altares, primitivamente 3 e depois 5, eram quase todos de talha dourada. A porta principal do templo dava para noroeste e no exterior da frontaria existiam 3 nichos com imagens de S. Domingos no alto, Nossa Senhora do Rosário do lado esquerdo e uma Nossa Senhora com o menino do lado direito. Essas imagens ainda hoje existem na cave da actual igreja, mereciam condigna exposição no museu da freguesia contíguo ao Centro Social. As horas eram dadas ao povo através da sineta do relógio de pesos colocado no telhado, no centro sul junto à frontaria, espalhando o som aos quatro ventos, cuja direcção o galo da torre ali ao lado, diligentemente indicava. A forte e vetusta torre sineira manteve-se intacta após a derrocada da igreja nos anos 50 e foi sensatamente integrada no edifício do Centro Social, constituindo, deste modo, uma valiosa referência histórica e significativo símbolo de religiosidade local.

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Torre da igreja velha

 

A Actual igreja, inaugurada em 1959, em substituição da anteriormente descrita, localiza-se numa pequena lomba, a sudeste da povoação. É um templo simples, sem traços arquitectónicos dignos de relevo. No seu interior o tecto é dividido em caixotões, uniformemente pintados a azul. Possui altas frestas laterais envidraçadas (1), alguns elementos de ferro forjado e imagens diversas colocadas em peanhas - Para além das imagens do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora de Fátima com os pastorinhos, o elemento de maior destaque e de forte presença é a imagem de Cristo Crucificado, na fachada central do altar-mor, imagem esta outrora existente e invocada como Senhor dos Desamparados na capela que tinha esse nome, dentro da povoação, e hoje apelidada de S. Sebastião. Embeleza a frontaria uma rosácea ao nível do coro. No lado direito eleva-se a torre sineira, de adequadas dimensões, e do lado esquerdo, em posição avançada em relação à frontaria, situa-se o salão paroquial. Um panorâmico adro envolve o conjunto.

(1) - Os novos vitrais acabados de colocar em princípios de 2007, vêm valorizar o património religioso da freguesia de Cabril.

 

Capelas

Dentro da povoação existem 3 capelas: Nossa Senhora das Dores, São Sebastião )outrora Senhor dos Desamparados) e Santa Apolónia, todas elas já objecto de remodelações no decurso das suas existências. A primeira tem uma lápide com data de 18858, que supomos corresponder à sua construção.

Segunda, de característica arquitectónicas semelhantes, será de época aproximada. A terceira, a de Santa Apolónia, merece uma referência especial, pois é de longevidade desconhecida e muito remota, devendo-se enquadrar a sua construção no movimento religiosidade subsequente à reconquista cristã. De facto, o sentimento religioso daí emergente foi alargado a todo o território através da acção dos bispados, e a capela constituía, nos pequenos povoados, o sinal visível dessa religiosidade, com o santo ou santa a servirem de esteio e protecção às populações. Nas "Memórias Paroquiais do Reino", de 1758, esta capela é referida como ermida junto do povoado. Algumas das imagens desta capela são incorporadas na procissão do orago da freguesia - São Domingos - na festa anual celebrada em sua honra, a 4 de Agosto. Refira-se ainda a titulo de informação, que estas capelas recebiam outrora os mortos trazidos dos povoados da freguesia, delas partindo os funerais para o cemitério.

Para além destas capelas existentes no interior da povoação, há que referir a linda a de Nossa Senhora de Lurdes, nas Chãs, erigida em 1922 por iniciativa dos cabrilenses emigrados em França, no seguimento da 1.ª Grande Guerra Mundial, em que vários dos nossos mancebos participaram, e a de Santa Luzia encostada ao morro quartzítico que divide as freguesias de Cabril e Vidual. Importa salientar que a romaria de Nossa Senhora de Lurdes constitui um festivo evento anual, no segundo domingo de Agosto, muito participada pelas populações da freguesia durante três dias. Quanto à capela de Santa Luzia, atrás referida, ela foi mandada, construir por um particular no final dos anos 20, na sequência de uma promessa feita, e nela é celebrada missa a 8 de Setembro. A cruz levantada em frente do pequeno templo, em nível mais elevado, veio substituir uma outra, revestida de vidro, erigida no morro ao lado da capela, a qual ruiu por falta de resistência da sua base.

Anda no domínio do património eclesial, o Cabril possui uma nova residência paroquial, junto à igreja, um novo lagar de laboração eléctrica que sucedeu ao do Vale Pereiro, multi-centenário, um extenso passal e uma pequena casa, a chamada Casa do Senhor, na Rua de Cima.

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Capela N S Lurdes

 

2. Público - Administrativo

Quanto ao Património público-administrativo, refira-se a nova sede da Junta de Freguesia, o cemitério construído às Chãs, em 1941, em substituição do anterior existente na Lomba da Igreja (entenda-se primitiva igreja) a antiga escola, no Cabeceiro e bem assim a que lhe sucedeu, em 1959, nos Ucheiros.

3. Particular - De interesse Público

É de salientar a existência de um amplo Centro Social/Museu e um Centro de Dia/Posto Clínico, imóveis estes que, pela sua meritória função, muito honram e dignificam a sede de freguesia, mas deles falaremos desenvolvidamente quando historiarmos a vida e obra da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril, pois a esta associação se deve a construção destas estruturas sociais.

Lenda de S. Domingos

É tradição que no alto da serra de S. Domingos, a norte da povoação do Cabril, existia uma capelinha dedicada a este santo, o qual não só deu o seu nome à serra onde se encontrava, como também veio a ser o patrono da freguesia quando, em finais do século XVII, ela veia a ser constituída.

Altar de S. Domingos

Assim, erigida a primeira igreja do Cabril, procedeu-se à remoção da imagem, com toda a pompa e circunstância, da capelinha da serra para o altar que lhe fora dedicado na nova igreja. Porém, S. Domingos não gostou da graça. Habituado aos vastos horizontes que os 900 metros de altitude lhe proporcionavam, e sobretudo agradado com o convívio dos pastores que diariamente passavam pela capelinha, recusou-se a aceitar a transferência. Assim, roído de saudades, logo que chegava a noite escapulia-se sorrateiramente da igreja, trepava a encosta e lá se ia infiltrar na sua solitária morada, desejoso de ouvir, no dia seguinte, o balido dos rebanhos em pascigo. Tantas foram as vezes que o foram buscar, e tantas as vezes que o santo fugiu, que só uma firme resolução aos cabrilenses restava - eliminar a capelinha. Isto mesmo ao santo disseram, pois muito o queriam louvar, mas na sua igreja matriz. Consta que S. Domingos, sensibilizado com tanta dedicação, foi ele próprio a destruir a morada serrana e voltou definitivamente para o altar, bem junto dos seus fiéis devotos. Consta que a capelinha se situava junto ao Penedo do lado dos Ribeiros, e que quem bem procurar ainda restos de telhas aí encontrará.

Outras fotos de Cabril
Cabril

 

Textos: de José Teodoro Martins com a Edição da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril - 50.º Aniversário  e de Armando Reis com a obra Subsídios para a História do Regionalismo Serrano, Cabril (Pampilhosa da Serra) e a sua Liga de Melhoramentos - e ainda, comunicados, notícias e outros assuntos importantes para divulgar através deste sítio através da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril.
A manutenção desta página está a cargo de Carlos Alberto Teodoro da Purificação Cruz.
Última actualização: 15-Abr-2018