Freguesia

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Rebanho de cabras

Introdução

No decorrer da longa caminhada humana sobre a terra, a observação atenta e continuada da natureza e dos seus fenómenos terá sido o ponto de partida para o homem dominar, experiência após experiência, essa mesma natureza, extraindo dela, de forma inteligente, os meios necessários à sua subsistência.

De início, os povos tinham uma vida errática, recolhendo, aqui e acolá, os frutos espontâneo da natureza, ao mesmo tempo que praticavam a pastorícia e se exercitavam na caça. A esta fase de errância, em que o sentimento de posse da terra ainda não existia, sucedeu o processo de sedentarização, isto é, de fixação e apropriação dos solos e do seu cultivo. Neste processo, o local escolhido teria de obedecer a alguns requisitos, sem os quais o desenvolvimento e o bem-estar da vida familiar não teria sucesso. A construção de abrigos para as pessoas e animais, o arroteamento de terras, o corte de matos e a sua aplicação na fertilização dos solos, foram tarefas essenciais e necessárias à implantação dos agregados familiares. Mas um outro elemento, indispensável às pessoas e animais, se tornava fundamental: esse precioso líquido que é a água. A fixação das populações começou pois por verificar-se, preferencialmente, nas margens de rios, ribeiros e barrocos, por vezes junto de pequenas linhas de água, desde que suficientes para as necessidades dos pequenos aglomerados. Em certos casos, mais raros, o surgimento dos núcleos populacionais decorria de uma privilegiada situação geográfica, normalmente cruzamento de caminhos que davam acesso a outras povoações, tornando-se tais cruzamentos pontos de encontro e atendimento das necessidades dos caminhantes. O pequeno comércio aí implantado - a "venda" - tornava-se o embrião de uma futura povoação.

Na área da freguesia de Cabril, a maioria dos povoados formou-se junto de ribeiras e ribeiros, onde a vida agrícola se tornava fácil e os campos mais produtivos. A excepção a esta regra encontramo-la, de forma notória, na povoação do Armadouro, onde a carência de água, antes da prática actual dos furos artesianos, sempre se fez sentir. O Cabril, dada a grande extensão de encosta em que está situado, não deixava de beneficiar, ainda assim, de duas linhas de água - os barrocos da Carvalha e Samelo, entre os quais a povoação teria surgido. Entretanto, a sua situação de cruzamento de caminhos, de que no capítulo seguinte falaremos, deverá estar na origem do seu desenvolvimento e crescente importância, já notória aquando da sua escolha para sede de freguesia, nos finais do século XVII.

A vila da Pampilhosa (que recentemente passou a apelidar-se "da Serra") julgamos constituir um exemplo claro em que os dois factores - abundância de água fluviais e local de cruzamento - se conjugaram para proporcionar o seu desenvolvimento e, mais tarde, a sua inabalável afirmação na conquista da autonomia administrativa, face ao município covilhanense. É certo que esse desenvolvimento teria sido muito lento, mas podemos presumir que esta sede de freguesia já teria importância adquirida ao longo dos tempos, mesmo antes da formação da nacionalidade portuguesa, importância já notória aquando do ordenamento secular e religioso do território subsequente à reconquista cristã. É o que se depreende se compararmos os valores da taxação aplicada em benefício do Cabido da Diocese da Guarda, em 1359, às seguintes igrejas: Santa Maria da Pampilhosa, 110 libras; São Domingos de Janeiro de baixo (que nessa altura compreendia também as terras de Janeiro de Cima, Orvalho e Bogas de Baixo), 80 libras; Santa Maria de Dornelas, 30 libras.

O que vimos expondo, nesta breve introdução, tem apenas por objectivo enquadrar a povoação e a freguesia de Cabril num espaço que era outrora da Pampilhosa - concelho cem por cento serrano - e num tempo de extrema fragilidade económica, em que os valores essenciais eram a terra e o trabalho duro e obstinado do homem em busca dos escassos meios de subsistência. O contacto com as terras planas do litoral era difícil, e apenas um ou outro comerciante ou almocreve, mais afoitos e determinados, atravessavam a Serra Amarela montados nas suas mulas e chegavam aos domínios da Lousã ou de Coimbra. Assim, as alterações no modo de vida da gente serrana, para quem o mundo tinha a dimensão dos horizontes circundantes, foram muito lentas e demoradas. Mas um dia, a barreira do isolamento começa a ser transposta. No seguimento da introdução do comboio, no séc. XIX, as velhas diligências puxadas a muares atrevem-se a subir a serra a partir da Lousã, através da antiga Estrada Real n.º 52 que, por etapas, pretende alcançar a Pampilhosa. Depois da Ponte de Sótão e de mil voltas serra acima, alcança-se a Cerdeira, com o Trevim majestoso à direita, e a várzea de Góis lá em baixo, à esquerda. Entretanto, as levas de homens, de picaretas em punho, dobram a Portela do Vento e alcançam Farropo (Vale de Cavalos), local este que iria ser, durante muitos anos, um ponto de chegada e de partida de passageiros, bem como entreposto de mercadorias destinadas aos comerciantes das povoações serranas e transportadas em mulas e carros de bois. A construção desta estrada (hoje a n.º 112), que só em Fevereiro de 1932 alcançou a Pampilhosa, constituiu uma dura batalha difícil de vencer, numa época em que as armas eram a picareta, a pá e o braço do homem. mas foi ela, sem dúvida, a primeira artéria a irrigar o depauperado corpo do concelho pampilhosense.

Mais tarde, em 1935, surgiu um outro acontecimento importante para o desenvolvimento deste concelho, especialmente na sua nordestina, não só pelas estradas rasgadas, mas também pelos postos de trabalho que durante alguns anos proporcionou: foi ele o empreendimento hidroeléctrico da barragem de Santa Luzia, hoje um local aprazível e de inegável interesse turístico.

Mas a vida, nos anos 40 e 50, continuava difícil face às dificuldades decorrentes da falta de empregos e do improfícuo trabalho agrícola praticado em solos avaros e impróprios para tal actividade. Ancestralmente confinados a uma  pobre vida de subsistência, as nossas populações entenderam que chegada era a hora de, também elas, usufruírem de melhor sorte. E é deste despertar de consciências que em breve vai decorrer uma emigração intensiva: uns para o estrangeiro (França sobretudo), outros para as cidades pátrias litorais (Lisboa principalmente). Assim aconteceu, e assim se mantém, a diáspora da Beira-Serra.

Todavia, é justo reconhecê-lo, o homem sai por necessidade, das terras que lhe serviram de berço. Sai, mas delas não se esquece e muito menos abandona. Sabe que os que nela ficaram carecem de meios e forças capazes de romper a inércia e o isolamento. Vivendo agora na cidade, o aldeão-emigrante sente e compreende melhor as dificuldades e carências que importa eliminar. Além disso, continua a orgulhar-se do seu torrão-natal, carente de tudo: vias de comunicação, água canalizada, electricidade, telefone, assistência médica, saneamento básico, etc., E como a união faz a força, criam associações regionalistas, quotizam-se, concebem projectos e organizam festas geradoras de receitas com as quais, directamente ou em colaboração com as câmaras municipais e juntas de freguesia, promovem o bem estar material, social e cultural das povoações das suas terras.

Foi no contexto deste salutar e precioso movimento que nasceu, em 2 de Maio de 1948, a Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril. A efeméride do seu 50.º aniversário é digna de registo e condigna celebração. Daí, a edição deste singelo livro, com testemunho de regozijo e, simultaneamente, de gratidão para com todos aqueles que, vivos ou falecidos, deram à nossa Associação, nestes cinquenta anos, o melhor do seu esforço e dedicação.

A união faz a força

A união faz a força

 

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Textos: de José Teodoro Martins com a Edição da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril - 50.º Aniversário  e de Armando Reis com a obra Subsídios para a História do Regionalismo Serrano, Cabril (Pampilhosa da Serra) e a sua Liga de Melhoramentos - e ainda, comunicados, notícias e outros assuntos importantes para divulgar através deste sítio através da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Cabril.
A manutenção desta página está a cargo de Carlos Alberto Teodoro da Purificação Cruz.
Última actualização: 15-Abr-2018